“A
greve é o começo da guerra social contra a burguesia, ainda dentro
dos limites da legalidade... como método de luta eletriza as massas,
orienta sua energia moral e levanta em seu coração a consciência
do antagonismo entre seus interesses e os da burguesia... A greve é
uma guerra e as massas populares não se organizam senão no curso e
por meio da guerra que arranca cada trabalhador do isolamento
ordinário. A guerra une-o a outros trabalhadores em nome de uma
mesma paixão, de um único objetivo (...) As greves despertam nas
massas populares os instintos sociais revolucionários que dormem no
fundo de cada trabalhador, fazendo com que a propaganda entre eles
seja extraordinariamente fácil... A greve é o melhor meio para
arrancar os trabalhadores da influencia política da burguesia. Sim,
as greves são uma grande coisa. Criam, multiplicam, organizam e
formam os exércitos do trabalho, que devem quebrar e vencer a força
do Estado burguês...” (Mikhail Bakunin,
“Sobre las huelgas”)

O
mês de fevereiro de 2014 ficará marcado na memória dos
trabalhadores da indústria de saneamento do Distrito Federal. Não
apenas como um mês de dor, pela perda de um irmão trabalhador
vítima de um acidente de trabalho, mas também como um mês de luta
e ação por justiça e melhores condições de vida. Ficará marcado
também pelos importantes passos dados pelo SINDÁGUA-DF
(Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e
Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos)
no sentido de aprofundar uma política classista e em defesa da ação
direta dos trabalhadores.
Na
primeira semana de fevereiro, mais precisamente em uma quinta-feira
(06/02), o operário Luciano Almeida da Silva, de 36 anos,
funcionário terceirizado da empresa GeoBrasil, morreu afogado
enquanto fazia com mais cinco trabalhadores a manutenção em uma
adutora da CAESB (Companhia de Saneamento Ambiental do DF) que havia
rompido na avenida EPTG. Além de Luciano, um dos trabalhadores teve
ferimentos leves, três ficaram com ferimentos graves (ficando
diversos dias hospitalizados), e um deles felizmente ficou ileso.
Segundo uma nota distribuída em um piquete de protesto organizado
pelo Sindágua:
“Os
trabalhadores que sofreram essa barbaridade eram plantonistas e
começaram a trabalhar às 7h da quarta-feira, deveriam ir para suas
casas às 19h, termino do plantão. Entretanto, foram chamados para
consertar a referida adutora durante toda a noite e madrugada até o
segundo rompimento da rede na manhã de quinta feira. Dessa
forma, Luciano e seus demais colegas de equipe trabalharam por 27
horas seguidas”.
Ou
seja, as condições impostas eram desumanas! E por isso revelam a
face mais funesta e o objetivo maior da terceirização: a exploração
de cada gota de suor e de sangue do trabalhador, para depois o
descartar sem a menor garantia, seja demitindo ou até mesmo matando.
A
morte de Luciano ocorreu em meio ao sensacionalismo da mídia e do
Estado em torno da morte do cinegrafista no Rio de Janeiro, sedentos
por um motivo para aumentar a repressão policial aos manifestantes,
e como já era de se esperar nenhuma palavra sequer foi dada, nenhuma
lágrima sequer foi rolada para o operário assassinado pelas
péssimas condições de trabalho e pela superexploração. O
“humanismo” da burguesia é realmente muito seletivo aos seus
interesses: o que ocorreu no Rio de Janeiro foi uma “tentativa de
assassinato”, e o que ocorreu ao operário morto na adutora da EPTG
(e que ocorre todos os dias nos mais diversos cantos de nosso país)
foi uma “fatalidade”, uma “exceção”.
Sabemos
que Luciano não foi o primeiro trabalhador assassinado vítima das
condições de trabalho impostas pelos patrões a fim de aumentar
seus lucros. Milhares de outros trabalhadores morreram, foram
mutilados ou feridos em condições parecidas, nas obras do PAC,
canteiros de obras, nas obras dos estádios, nas fábricas, nas
escolas. A burguesia sempre tratou de considera-los como meros
números de estatísticas e se omitir da real origem desses acidentes
de trabalho: não foram descuidos ocasionais, fatalidades, exceções.
A mutilação do trabalhador é a regra do capitalismo. A cada dia o
povo morre um pouco em seu trabalho, explorado pelo patrão. Volta
para casa em um ônibus lotado, vendo seu suor e sua vida sendo
extorquida para engordar meia dúzia de parasitas.
Mas
os trabalhadores em saneamento do DF chegaram a conclusão certa:
ninguém fará pelos trabalhadores o que só interessa a eles mesmos.
Os patrões e o governo não lhes darão melhores condições de
vida, eles terão que lutar para isso, terão de arrancar essas
conquistas. Pela força se for necessário, e a força coletiva dos
trabalhadores possui um grande poder. Por isso não podemos
esperar nenhum pesar sincero por parte dos patrões e do Estado,
esperaríamos por lágrimas de crocodilo. No entanto, por parte dos
camaradas de trabalho, dos camaradas de sofrimento e de luta, é que
devemos esperar sempre o sentimento sincero de pesar, de lembrança,
e da força necessária para lutar por justiça e direitos. E foi
isso que presenciamos nos dias que se seguiram após a morte do
camarada Luciano.
A
tragédia ocorreu um dia antes da abertura dos trabalhos do VIII
CONSAN (Congresso dos Trabalhadores em Saneamento), este por sua vez
pautou do início ao fim as origens da precarização do trabalho
(seja para os efetivos ou terceirizados), os métodos de luta para
combatê-la, as reivindicações, etc. Um dia após o Congresso, dia
10/02 (segunda-feira), o Sindágua organizou um protesto que reuniu
cerca de 300 operários e paralisou as atividades da sede da CAESB.
Na semana seguinte a mobilização da categoria continuou, e os
trabalhadores dessa vez fecharam a mesma avenida (EPTG) com uma
pequena barricada de paus, pneus e com faixas de protesto. Na
ocasião, a assembleia que ocorria na porta da empresa, foi
transferida para a rua. Nesses dois atos a presença dos
terceirizados lutando ombro-a-ombro com os caesbianos foi nítida,
demonstrando a ilusória e prejudicial divisão daquela categoria e,
acima de tudo, a necessidade de unificação pela base. Como
continuidade dessa mobilização, nos dias 06 e 07/03, a exatamente
um mês da morte de Luciano, os trabalhadores terceirizados da
empresa MPE cruzaram os braços, exigindo o fim dos atrasos no vale
alimentação e transporte. Até agora os direitos ainda não foram
pagos e novas paralisações e lutas ainda estão por vir.
O Congresso
dos Trabalhadores em Saneamento e a ação direta proletária: um
contraponto a burocracia sindical do DF
O
VIII Congresso das Trabalhadoras e Trabalhadores em Saneamento do DF
(CONSAN) que ocorreu nos dias 07, 08 e 09 de fevereiro, reuniu
delegados eleitos nas bases, membros da diretoria colegiada, e
organizações e militantes apoiadores (dentre elas a Rede Estudantil
Classista e Combativa – RECC e o Fórum de Oposição pela Base
–FOB), e teve como tema: “Organizar a classe trabalhadora para
enfrentar o Capital”. Apesar de não contar com a ampla
participação que aquele espaço merecia, o que evidencia uma
necessidade constante de se avançar no trabalho de base, o Congresso
contou com debates de altíssima qualidade. Na verdade, foi um
momento central para os trabalhadores e os militantes debaterem não
apenas as condições imediatas da categoria, mas para compreender
como o sistema capitalista, a crise econômica, os conflitos entre as
classes sociais e as formas como esses conflitos se desenvolvem, como
todos esses elementos possuem impactos diretos sobre os operários da
CAESB. A temática das “Jornadas de Junho” de 2013 esteve
presente em quase todas as mesas e polêmicas.
Os
encaminhamentos gerais do VIII CONSAN expressaram avanços
importantes na concepção sindical classista e combativa dos
trabalhadores do saneamento. Primeiramente, a política geral de
unidade com os demais movimentos sociais, populares e estudantis
foi mantida enquanto entendimento de que a classe trabalhadora está
muito além da esfera regular e sindicalizada. Mais do que palavras
mortas (como fazem os pelegos), todos estavam cientes e convictos que
devem continuar essa política de solidariedade classista na prática.
Como
desenvolvimento da crítica às divisões internas da classe
trabalhadora ocasionadas pelas terceirizações e reproduzidas pela
burocracia sindical, o CONSAN deu um passo fundamental em unir o que
a burguesia e as burocracias separaram: deliberou por ampla maioria
que o Sindágua está a serviço da luta dos trabalhadores em
saneamento, sejam eles concursados ou terceirizados, e irá ajudar na
organização da luta dos terceirizados. Se a terceirização é
tão difundida por ser um mecanismo rentável à burguesia, é
lutando pelos seus direitos que os próprios terceirizados estarão
dando o melhor combate à raiz da terceirização.
Algumas
outras deliberações marcaram a combatividade, independencia e
solidariedade de classe dos trabalhadores em saneamento. Os delegados
deliberaram por ampla maioria se unir aos movimento contra os
efeitos dos megaeventos e apoiar a campanha “Não tem direitos? Não
vai ter Copa!”. Outra importante deliberação foi a construção
de um Seminário “Não Vote, Lute!” que debata as eleições
burguesas de 2014 e a alternativa para a classe trabalhadora frente a
farsa eleitoral. Além disso, será feita nesse primeiro semestre uma
“Campanha regional contra o assédio moral e a repressão aos
movimentos sociais e seus militantes”, tendo como objetivo dar
continuidade a denúncia das perseguições políticas, do assédio
moral no local de trabalho, bem como se solidarizar a esses
militantes e trabalhadores perseguidos, tal como é o caso do
histórico militante e perseguido político o professor Marcleo
Rosseli.
Muito
mais do que uma simples “palavra de ordem” ou discurso demagógico
de burocratas, a ação direta dos trabalhadores que foi debatida no
CONSAN foi também logo em seguida levada à prática nos atos que se
seguiram em denuncia a morte do camarada Luciano e na própria greve
dos terceirizados da MPE. Os trabalhadores passam a perceber que mais
do que caos e destruição, e mais do que uma “tática” possível
dentre várias outras (como buscam ressaltar os oportunistas), a Ação
Direta é um princípio e uma estratégia de luta dos trabalhadores.
Ela significa que os trabalhadores não esperam mais por políticos
ou por nenhum salvador que não seja a sua própria luta e
organização. Os trabalhadores através de sua ação direta (sem
intermediários) irão tomar as rédeas de seu destino e combater
seus inimigos (patrões, governos e burocracias). Isso é o que
ocorreu nas Jornadas de Junho de 2013, e essa concepção é que
devemos levar aos locais de trabalho.
O desafio dos
revolucionários frente ao avanço da repressão estatal e da crise
de organização da classe trabalhadora
Em
maio de 2013 ocorreu o primeiro treinamento das forças repressiva
dos Estado nos centros de trabalho da CAESB. Segundo informações da
imprensa burguesa: “Os exercícios (...) envolveram 120 agentes
e militares das Forças Armadas, do Comando de Operações Especiais,
do Corpo de Bombeiros, do Samu-DF e da Agência Brasileira de
Inteligência (Abin)”. Além disso, ocorreu no dia 27 de
novembro de 2013 a primeira reunião para tratar sobre a segurança
pública nos dias de jogos da Copa do Mundo e empresas públicas
estratégicas como a CAESB e CEB (Companhia Energética de Brasília)
estavam presentes. A denuncia feita por trabalhadores de que a
perspectiva do governo é ocupar militarmente os postos de trabalho
da CAESB durante os jogos de Copa do Mundo é cada vez mais visível.
A questão é: a repressão nacional a todo e qualquer protesto será
a regra dos governos estaduais e federal e a Lei Geral da Copa é um
instrumento legal para o “Estado de Sítio”.
Nesse
sentido, os trabalhadores e militantes revolucionários terão
grandes desafios mais também grandes possibilidades nesse ano de
2014. Se por um lado cresce a repressão, por outro e mais
avassalador, cresce a revolta do povo contra suas péssimas condições
de vida. Nas favelas, nos locais de trabalho, nas escolas, o povo
desenvolve sua luta, enfrentando a repressão policial, a
intransigência dos patrões e as burocracias sindicais e
partidárias. Nesse momento, não podemos nem subestimar a repressão
nem se aterrorizar e acha-la invencível, pois não é. O movimento
sindical revolucionário, como dos trabalhadores em saneamento, deve
aproveitar esse ano para aprofundar sua linha política classista e
internacionalista, dar um passo a frente na aliança com os
trabalhadores de outras categorias, com as oposições, e ser uma
referencia de luta contra as burocracia sindicais e partidárias.
Por
isso, devemos esse ano levantar em alto e bom som: Chega de ver seus
nossos irmãos sendo mortos, demitidos injustamente, ver os salários
atrasados por vários meses, não ter férias, Nós queremos receber
um salário digno, a alimentação e o transporte de qualidade!
CAMARADA
LUCIANO, PRESENTE!
VIVA
A LUTA DOS TRABALHADORES TERCEIRIZADOS!
ABAIXO
A TERCEIRIZAÇÃO E A PRIVATIZAÇÃO! NÃO PL 4330! NÃO ÀS PPP’s!
RECONSTRUIR
O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO!
VIVA
OS TRABALHADORES EM SANEAMENTO E O SINDÁGUA-DF!
Nenhum comentário:
Postar um comentário